Pesquisar este blog

domingo, 15 de abril de 2012

O barquinho

Certo dia, estava sentado na casa da minha Avó. Na verdade nem era minha avó de verdade, mas significava muito mais que isso. Mas deixando tudo isso de lado, ela me dizia sempre que eu era um barquinho. Onde Deus havia me colocado num rio, o rio da vida. E o barquinho ia sendo levado pelo rio, às vezes ele ficava preso num galho, em lugares estranhos, e permanecia lá por algum tempo, esperando que chovesse para que o rio subisse, e pudesse tirá-lo de lá. Às vezes o rio ia ficando sem água, e o barquinho não navegava. Ele esperaria de novo pela chuva, para que pudesse voltar a sua viagem. Eu perguntava, "Mas Vó, esse barquinho não afunda? Por quanto tempo ele vai aguentar isso tudo?" Ela sorria, ajeitava seus cabelos loiros sem cor, me olhava com aqueles olhos azuis cristalinos, acendia um cigarro, como quem se preparasse pra dar uma notícia assustadora. Mas ela simplesmente dizia, que só Deus sabia o porquê do barquinho não afundar, mas o barquinho tinha que tomar cuidado mesmo assim, porque não é qualquer barquinho que aguenta tudo. E eu perguntava mais, "Mas Vó, Deus que faz chover?" , ela dizia que, a natureza era uma dádiva de Deus. Às vezes, pode cair uma chuva de repente, o tempo pode virar sem explicação. Quer dizer, sem explicação não. E ela ria, tossia, fazia um carinho na minha cabeça.. E eu sempre perguntava o que haveria no final do rio. E ela simplesmente dizia que um dia eu descobriria.
E os anos foram se passando, e toda vez que eu a visitava, e acabava deitando no seu colo, choramingava as dores da vida, ela fazia aquele carinho que só ela sabe, me acalmava, e acendia um cigarro. Eu sempre reclamava da vida, das pessoas, de tudo... Sempre dizia que não conseguia ver a felicidade em nenhum lugar. E ela dizia que eu era um barquinho. E eu dizia que não queria ser um barquinho. E ela dizia que eu era, querendo eu ou não, e devia aceitar isso. Dizia que eu devia aceitar mais as pessoas, aceitar que eu não posso mudar e querer que o mundo mude comigo. Ela dizia pra aprender a ser feliz, a felicidade não é algo pra se sentir todos os dias, mas são momentos, momentos bons. Ela dizia que eu era uma boa pessoa, que tinha um coração bom, e por isso sofria demais. E eu descobri, que ela tinha razão. Eu sofria demais, sofria por tudo, sofria por todo mundo. E eu perguntei, "Mas Vó, o que eu faço?" , ela ria. E eu dizia, "A chuva" .
E percebi que devemos esperar o momento certo para mudar, mas não esperar demais. O tempo não volta, os momentos também não. Não posso carregar o fardo de ninguém, o meu já é pesado demais. E se o mundo não mudar por você, não se desespere, não se mate. Aprenda a aceitar que o mundo não gira em torno de você, e é você quem tem que se adaptar as mudanças dele, e não ele às suas. Nunca tive uma amizade tão forte como essa, com uma pessoa, com décadas a mais de idade, de experiência.
Às vezes, ver o quanto você está errado, o quanto você aumenta as coisas... Às vezes, ver isso de fora ajuda muito. E assim, termino isso. O barquinho ainda não chegou ao fim.

Na areia


O mar pode resumir muitas coisas, difícil é perceber.
Quando a onda vem, levando tudo pra bem longe da gente,
Deixando uma bruma gostosinha, divertida, boa de ver.
Às vezes, ela leva o que nos faz forte, e a gente sente.

Sente tanto, que sentimos vontade de correr atrás,
Pular no mar, sabendo que é impossível, pra resgatar
O que ela levou... Às vezes, isso nem é tão importante mais,
E perdemos a cabeça, vamos em direção ao mar, sem saber nadar.

Ninguém quer perder algo aparentemente bom, bonito.
Mas ninguém sabe, ela pode trazer algo bem, bem melhor.
Enquanto isso, a dor fica aprisionada na garganta, um grito.

E as lágrimas imitam as ondas, num ritmo acelerado, maior.
Às vezes, ao tentar salvar o que as ondas levaram, perde-se mais...
Proteja-se na areia, e espere que alguma hora, algo melhor virá.