Certo dia, estava sentado na casa da minha Avó. Na verdade nem era minha avó de verdade, mas significava muito mais que isso. Mas deixando tudo isso de lado, ela me dizia sempre que eu era um barquinho. Onde Deus havia me colocado num rio, o rio da vida. E o barquinho ia sendo levado pelo rio, às vezes ele ficava preso num galho, em lugares estranhos, e permanecia lá por algum tempo, esperando que chovesse para que o rio subisse, e pudesse tirá-lo de lá. Às vezes o rio ia ficando sem água, e o barquinho não navegava. Ele esperaria de novo pela chuva, para que pudesse voltar a sua viagem. Eu perguntava, "Mas Vó, esse barquinho não afunda? Por quanto tempo ele vai aguentar isso tudo?" Ela sorria, ajeitava seus cabelos loiros sem cor, me olhava com aqueles olhos azuis cristalinos, acendia um cigarro, como quem se preparasse pra dar uma notícia assustadora. Mas ela simplesmente dizia, que só Deus sabia o porquê do barquinho não afundar, mas o barquinho tinha que tomar cuidado mesmo assim, porque não é qualquer barquinho que aguenta tudo. E eu perguntava mais, "Mas Vó, Deus que faz chover?" , ela dizia que, a natureza era uma dádiva de Deus. Às vezes, pode cair uma chuva de repente, o tempo pode virar sem explicação. Quer dizer, sem explicação não. E ela ria, tossia, fazia um carinho na minha cabeça.. E eu sempre perguntava o que haveria no final do rio. E ela simplesmente dizia que um dia eu descobriria.
E os anos foram se passando, e toda vez que eu a visitava, e acabava deitando no seu colo, choramingava as dores da vida, ela fazia aquele carinho que só ela sabe, me acalmava, e acendia um cigarro. Eu sempre reclamava da vida, das pessoas, de tudo... Sempre dizia que não conseguia ver a felicidade em nenhum lugar. E ela dizia que eu era um barquinho. E eu dizia que não queria ser um barquinho. E ela dizia que eu era, querendo eu ou não, e devia aceitar isso. Dizia que eu devia aceitar mais as pessoas, aceitar que eu não posso mudar e querer que o mundo mude comigo. Ela dizia pra aprender a ser feliz, a felicidade não é algo pra se sentir todos os dias, mas são momentos, momentos bons. Ela dizia que eu era uma boa pessoa, que tinha um coração bom, e por isso sofria demais. E eu descobri, que ela tinha razão. Eu sofria demais, sofria por tudo, sofria por todo mundo. E eu perguntei, "Mas Vó, o que eu faço?" , ela ria. E eu dizia, "A chuva" .
E percebi que devemos esperar o momento certo para mudar, mas não esperar demais. O tempo não volta, os momentos também não. Não posso carregar o fardo de ninguém, o meu já é pesado demais. E se o mundo não mudar por você, não se desespere, não se mate. Aprenda a aceitar que o mundo não gira em torno de você, e é você quem tem que se adaptar as mudanças dele, e não ele às suas. Nunca tive uma amizade tão forte como essa, com uma pessoa, com décadas a mais de idade, de experiência.
Às vezes, ver o quanto você está errado, o quanto você aumenta as coisas... Às vezes, ver isso de fora ajuda muito. E assim, termino isso. O barquinho ainda não chegou ao fim.
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domingo, 15 de abril de 2012
domingo, 6 de novembro de 2011
São só palavras
Qual o poder que as palavras têm afinal?
Palavras podem ser ásperas, ser carinhosas,
Atenciosas, violentas e até mesmo como rosas.
Lindas, mas com espinhos, imersas no vendaval.
Palavras são só palavras. Será mesmo verdade?
Como é vazio o peito daquele que tudo faz,
E nenhuma palavra recebe, sempre no jamais,
Perdido no nunca e pra sempre, na maldade...
Economizar nunca fora uma péssima idéia.
Até começarem a economizar palavras ...
Egoísmo de uma parte, perdido na platéia.
O cansaço domina o corpo, e a dor também.
Os olhos então fecham-se, e elas chegam.
Silenciosas como pedras, ardentes como fogo.
domingo, 25 de setembro de 2011
Gaivotoar
Será que sentir saudades é sinal de fraqueza? E sentir ciúmes, algum sinal?
Em momentos como esse, poucas palavras são muito, e muitas nada são.
A saudade não tem definição, mas tem sintomas; dor, agonia, sofrimento especial,
Vazio no peito... Já os ciúmes; ódio, raiva, insegurança e aperto no coração...
E quando pensamos que não pode piorar, entra um agravante: A distância.
Longe de tudo, não sabemos o que acontece, e é nela que nasce a saudade...
É nela que cresce o ciúme, é na distância que descobrimos a nossa arrogância
De não querer ouvir nada, sendo ignorantes, ignorando a verdadeira realidade.
Enquanto que a falsa nos torna paranóicos, loucos, confusos e idiotas...
São sempre nas mesmas horas que brota essas vontades retardadas,
Nas quais tudo, digo tudo mesmo, que queríamos não podemos ter.
E são nessas horas mongolóides as quais nos tornamos crianças gaivotas,
Voando por entre mares e mares de possibilidades e na busca de desejadas
Maneiras de ter o que não podemos, com uma única certeza: a de nunca esquecer.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
O Jardim e a chave
Se um dia, este rapaz amar a uma mulher,
Não faria promessas, não faria juramentos.
Daria sua palavra, sua vida e tudo o que tiver.
Mas por enquanto, não passam de pensamentos.
Se um dia, encontrar o que chamam de amor,
Se neste dia ele ainda estiver a respirar,
Será como num quadro branco, por cor;
E dos melhores sonhos, a felicidade, conjurar.
Protegeria de tudo, guardar-lhe-ia em seus braços,
Conheceria a liberdade, sem hastes de uma cela
De prisão; aquecer-lhe-ia com o calor de seus abraços
Sempre que desejasse. Encontraria os lábios dela
Como a margem da praia encontra o mar aberto.
Mas como disse, não tenho a chave para meu Jardim secreto.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Dias noturnos
Há dias em que o sol não aparecerá no céu,
A lua estará coberta pela neblina, sem luar,
E as estrelas estarão escondidas pelo véu
Da noite, sem luz, sem ter o que nos guiar.
Há dias nos quais parecerá tudo confuso,
E uma única lembrança boa, pode ser
A solução, uma coisa pequena, besta, sem uso...
Mas nem todos têm o que lembrar, mas o que esquecer.
Dias como esses, a esperança parece não existir,
Cresce a agonia, a gente diminui de tamanho,
Se questiona o porquê das coisas, com torpor.
E o desejo de encontrar aquilo que desejamos antes de dormir,
Ganha força, arrancando pedaços, alimentando o vazio estranho
O qual esperamos, de alguma forma, ser preenchido por amor.
sábado, 25 de junho de 2011
Ela
Sei que ela tem altos e baixos, vai e vem, e no final dizem dar certo...
E ainda escuto dizerem; quão bom é o calor do sol numa manhã de inverno,
Ou como é abraçar aquele alguém que nos provoca taquicardia, mesmo perto
Não estando; Provar deste sentimento amargo e gostoso que reza ser eterno.
Sentir ódio de si mesmo por se apaixonar sempre pela pessoa errada,
Simultaneamente, alimentar esperanças repletas de adrenalina.
Ter a sensação de conquistar os sonhos de maneira sempre desejada,
E rezar sempre que fraquejar e surgir a tão desesperadora neblina...
Quão bom é poder deitar-se sobre a cama e cair nos braços do sono,
Sem nada em mente, simplesmente pensando estar imune de pesadelos...
Acordar e ver ao redor que tudo está como antes, sem abandonos.
Pode até ser verdade, viver sem ter medos ou enfrentá-los... Um apelo
A Deus sempre alivia a alma, desde que se acredite que Este sim existe.
Não é que ela não me atraia, o problema todo é que eu sou triste.
domingo, 5 de junho de 2011
Trem desgovernado
Certas coisas não mudam. O presente não muda o passado,
E nem toda água de torneira, chuva, garrafa, vira vinho...
Tudo é como é; não como parece ser. O inverno é gelado,
E o frio sugere calor, mas calor não se consegue sozinho...
Era criança, esperançosa, sorridente, cheia de sonhos e desejos;
Num breve movimento de abrir de fechar os olhos, hoje vejo
Quantas mudanças aconteceram, quantas noites perdidas sem dormir,
E quantas inúmeras vezes esperamos alguém para nos fazer sorrir.
Como será da próxima vez em que repetirmos o breve movimento?
O amor é como um trem, e cada estação na qual descansa é uma paixão.
Cada parada é diferente, mas todas são iguais por serem passageiras...
Palavras úmidas, cobertas de esperança, entregamos ao vento.
Às vezes, descansamos mais por estar cansados, noutras não.
Quando o trem chega no seu destino final, é pra vida inteira.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Soneto Incomum
"E de repente encontrava-se perdido,
Sem razões para lutar e continuar.
Cercado de erros e por eles iludido,
Caminho desvirtuado, a morte antecipar...
Não sabendo qual lugar o aguardava,
O fez sem hesitar, esperando o fim.
Quando presente se fez, descobriu que não amava
A si mesmo, manchando de sangue o próprio jardim...
Não se comparam dores. Na vida ou na morte
Não existe quem nunca as sentiu alguma hora,
Independente que seja fraco, ou forte...
E os ventos assopram e não vai embora...
A solidão nunca o deixou sozinho,
E o sofrimento jamais o deixou sem carinho..."
domingo, 10 de abril de 2011
Meu poema de nós dois
São em noites como essa que os desejos invadem a mente,
Enlouquecendo os mais fracos, enganando os mais fortes...
E em devaneio meu, sussurros assopram que estou carente,
Esperando que alguém pergunte como estou, -Sem sorte-
Alguém que me faça estar caso não esteja; que revitalize
Esse corpo sórdido; que toque a alma sem encostar
Num simples gesto de olhar; quero alguém que realize
Não meus sonhos, mas que realize o meu desejo de amar...
(Pessoa)
Mas que não seja pela metade, disperso
Quero o amante, o amor verdadeiro, constante
A razão minha de estar neste universo
A respiração que não demora, ofegante
Que sua voz complete a desejada minha
Pele que vista meu frio e aqueça
Que não mais me deixe sozinha
Chegue amor, fique... permaneça.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Soneto natural
Sei que o tempo passa, mas não significa que tudo
Deve passar junto com ele. Algumas coisas tortas
Ficam, mas ficam. Mesmo que o retrato fique mudo
Na parede, ainda faz meu peito arfar como estrelas mortas.
Sei que o vento sopra, e nasce assim a lufada.
Trazendo a tona às memórias, mostrando o vazio,
O qual o vento me empurra, no peito, uma facada.
A queda então, parece nunca encontrar o chão frio.
Sei que o mundo gira, e ninguém o consegue parar.
É apenas a natureza e o universo cumprindo o dever,
Assim como o Sol e a Lua não podem se amar...
Sei que o passar do tempo, o soprar do vento, e o girar do mundo,
São inevitáveis. Por mais frio que me faça sentir no calor, esquecer
Não irei tu, mas a solidão encontra em mim um abrigo profundo.
Deve passar junto com ele. Algumas coisas tortas
Ficam, mas ficam. Mesmo que o retrato fique mudo
Na parede, ainda faz meu peito arfar como estrelas mortas.
Sei que o vento sopra, e nasce assim a lufada.
Trazendo a tona às memórias, mostrando o vazio,
O qual o vento me empurra, no peito, uma facada.
A queda então, parece nunca encontrar o chão frio.
Sei que o mundo gira, e ninguém o consegue parar.
É apenas a natureza e o universo cumprindo o dever,
Assim como o Sol e a Lua não podem se amar...
Sei que o passar do tempo, o soprar do vento, e o girar do mundo,
São inevitáveis. Por mais frio que me faça sentir no calor, esquecer
Não irei tu, mas a solidão encontra em mim um abrigo profundo.
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Noites claras
Noites passo deitado em minha cama sem dormir...
Pensando; nas discussões, em como poder mudar;
Nos telefonemas nunca atendidos, sem sorrir
Pelas cartas nunca recebidas para ler e se emocionar...
Nos olhares nunca trocados, no rosto
Nunca visto, angústia maldita da espera...
Noites penso na vida e em seu desgosto,
À espera a qual chegue à louvada primavera
E ilumine teus olhos castanhos e teus cabelos,
E dê brilho a teus lábios sublimes, à tua cor...
E que principalmente do inverno espante os pesadelos...
Noites passo pensando em tudo e no amor...
Em como a vida poderia ser simples sem mudar
A essência... Quando percebo, a noite já está a clarear...
Pensando; nas discussões, em como poder mudar;
Nos telefonemas nunca atendidos, sem sorrir
Pelas cartas nunca recebidas para ler e se emocionar...
Nos olhares nunca trocados, no rosto
Nunca visto, angústia maldita da espera...
Noites penso na vida e em seu desgosto,
À espera a qual chegue à louvada primavera
E ilumine teus olhos castanhos e teus cabelos,
E dê brilho a teus lábios sublimes, à tua cor...
E que principalmente do inverno espante os pesadelos...
Noites passo pensando em tudo e no amor...
Em como a vida poderia ser simples sem mudar
A essência... Quando percebo, a noite já está a clarear...
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Folhas secas
Só as folhas secas, sem vida, caem do seu galho...
Se eu disser que as folhas verdes caem, é mentira.
Se tento arrancar uma folha jovem, eu falho...
Porque nada acontece por acaso, e o mundo conspira.
Uma folha só cairá quando tiver chegado à hora,
E tiver feito tudo o que lhe fosse imposto pela vida...
Pelas noites, quando não é nem dia e nem noite, a aurora
Rouba o brilho das estrelas, por última a mais garrida...
Deixe que o vento tire as folhas da árvore mais bela,
Assim, dando espaço para que outras novas possam nascer...
No escuro véu da noite, à chuva, eu espero na janela
A lufada que trará o meu amor, para o dia poder amanhecer
Com você do meu lado, se faz a clareza do meu mundo no teu olhar...
Valeu a pena esperar as ‘folhas’ caírem na hora certa, e te encontrar.
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domingo, 24 de outubro de 2010
Soneto da meia noite
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É como se fosse a primeira vez que escrevesse um poema.
É como se fosse a primeira gota a cair de uma tempestade,
É como se fosse o último a sair de uma sala de cinema,
É como se fosse a última flor a desabrochar na eternidade.
As palavras desaparecem e o peito ofegante fica sem ar.
Meu olhar tenta desviar, mas no final sempre retorna
À mesma figura que o tempo nunca poderá apagar,
Ao cálice puro; fonte de forças que nunca se esgota nem entorna.
Provar deste, é como mergulhar num mar sem fim,
Sem poder voltar a superfície, podendo apenas afogar-se
Cada vez mais, aproximando-se da tua pele de marfim.
Bebendo de teus lábios o mais puro mel a fabricar-se...
Enrolando-me em teus cabelos, em teus braços, em todo seu ser...
Nem mesmo o tempo, o infinito, o universo, fará meu amor perecer.
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