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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Era uma casa

Era uma casa como outra qualquer.
Tinha quartos, cozinha e até banheiro.
Os amigos entram a hora que quiser,
A família fica lá quase que o dia inteiro.

Era uma casa diferente das outras casas.
O fogão já estava um pouco velho, a panela
Um pouco enferrujada, a churrasqueira com brasas,
E tinha um pouco de poeira em cima da janela.

Era uma casa humilde, confortável.
Tinha um sofá que dava para conversar,
Uma tevê que passavam filmes agradáveis.

Era uma casa a qual não tinha do que reclamar.
Tudo isso, é sinal de que houve vida, movimento.
Mas há quem prefira uma casa limpa, nova, morta.

Passeio


Andando pela casa, sentei-me no velho sofá.
Numa mão, um copo. Noutra, um porta retrato.
Coçando a barba não feita, virando o copo pra lá,
Ouço um sussurro, com palavras de um passado abstrato.

Retiro a fotografia e vejo atrás dela uma data.
Assinada em baixo, com três palavras cortantes.
Nunca uma frase foi tão repugnante, tão inata...
Gotas caem sobre, e o copo esvazia-se, relutante.

E então da fotografia faz-se duas, quatro...
Como se fez o que não bate hoje, no passado.
Numa peça muito bem articulada, belo teatro.

No começo foi como furação descontrolado,
Mas com o tempo, fez-se vento frio, doloroso.
E é sentado num velho sofá que tudo termina.